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(RE)EXISTÊNCIA LGBTQIAP+
NA ESCOLA

POR CARLOS AUGUSTO JÚNIOR

(Fotógrafo: Jacson Souza | Direção: Carlos Augusto)

RESISTÊNCIA | escola
Carlos Augusto Júnior    |   09 dez 2021_18h00 

O ano letivo havia começado no sertão da Bahia, quando Sophia Rodrigues [nome fictício], uma adolescente de 17 anos, chegou ao colégio para mais um dia de aula durante o pré-carnaval baiano, um dos eventos mais importantes para quem vive na região e que coincide exatamente com o início do ano escolar para maioria das escolas do estado. Nesta época do ano, a alegria sobressaltava aos olhos da aluna, não só por causa do período de festas, mas também porque ela acabara de chegar ao 2° ano do Ensino Médio e aquele momento representava mais que uma simples vitória em toda a sua vida estudantil.
 


 


À base de muito esforço e resiliência, estar prestes a se formar no ensino médio significava uma espécie de ruptura nas estatísticas sobre a alta taxa de evasão escolar de pessoas transsexuais e travestis no sistema educacional brasileiro. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transsexuais, a ANTRA, a idade em que essas pessoas mais abandonam a escola é 13 anos, quando elas também sofrem com a expulsão familiar devido ao preconceito, incompreensão, bullying e ataques homofóbicos praticados pelos parentes. 
 
Felizmente, para Sophia, nem a evasão escolar, nem a expulsão de casa foram realidades em sua vida, mas a vivência diária na escola continuaria a se configurar como momentos de resistência, coragem e enfrentamento. Inteligente e otimista, Sophia era quem contagiava, fora da sala, suas duas melhores amigas, Isabela e Simone [nomes fictícios
], que assim como ela gostavam de conversar sobre os eventos e as fofocas que rondavam os quatros cantos da cidade. Entre uma aula e outra, elas aproveitavam as aulas vagas e os intervalos para andar pelos corredores da instituição e, sempre que podiam, iam até o banheiro para retocar, com muito cuidado, a maquiagem feita em casa. 

Os nomes verdadeiros de alguns e algumas entrevistados e entrevistadas foram substituídos por nomes fictícios. A decisão em alterar os nomes e sobrenomes dessas fontes foi tomada justamente para evitar que elas sofram alguma retaliação ou ameaças em virtude do que denunciaram, narram e compartilharam nesta reportagem 

Sophia é reconhecida no Instagram pelos seus challenges de maquiagem criativos e dinâmicos, inspirados nos conteúdos de make e hair da digital influencer, Bárbara Alves. “A história de vida da Bárbara é muito semelhante à minha. Hoje ela é independente, mora em apartamento pago por ela mesma, é digital influencer e inspira várias outras trans”. Tamanha é a paixão por maquiagem  que, desde pequena, Sophia aprendeu a se automaquiar com as paletas de sombras de sua mãe e, em uma de suas redes sociais, ela deixa claro aos seus seguidores o assunto principal de suas produções digitais: “meu único conteúdo aqui é entregar beleza” - mais uma razão tão importante para ela ir ao espelho com suas amigas, de vez em quando, para checar a consistência do blush, a demarcação exata do batom nos lábios e o preenchimento das sobrancelhas. 

Da sala de aula até o banheiro, Sophia enfrentava um dos obstáculos diários vivenciados por pessoas trans não só na escola, como em vários outros espaços da sociedade, como shopping, ambientes de festa, igrejas, dentre outros lugares. A realidade é que sua entrada no banheiro feminino nunca foi permitida pela direção da escola. Por isso, ela tinha que frequentar, obrigatoriamente, o banheiro masculino da instituição todos os dias. A aluna conta que sempre se sentiu incomodada por essa diferença de tratamento entre ela e suas duas amigas, e a situação piorava ainda mais quando se tratava de pedir ajuda ao setor administrativo da escola, cuja resposta sempre era a de que a única forma de resolver a situação da aluna seria reunir o corpo docente, de modo a chegar a um consenso. Mas a verdade é que até hoje, novembro de 2021, quando essa reportagem está prestes a ser finalizada, a reunião nunca aconteceu e a falta de consenso ainda serve como uma forma de proibição ao uso do banheiro pela aluna.

A proibição de utilizar esse espaço, os xingamentos e a falta de acolhimento por parte de profissionais da escola foram acontecimentos que mexeram profundamente com a saúde mental de Sophia, mas uma situação ainda mais assustadora viria a torná-la mais temerosa quanto ao uso do banheiro do colégio e ao ambiente educacional em si. Semanas antes do ocorrido, a estudante foi vítima de uma tentativa de estupro no banheiro masculino, que só não foi consumado devido às ameaças da estudante no momento em que tudo aconteceu. “Quando eu entrei no banheiro, tinha dois meninos na porta, que certamente eram amigos. Um deles bloqueou a entrada enquanto o outro me abordou dizendo que eu só sairia dali se eu fizesse sexo oral neles. Eu juro que fiquei muito assustada e ameacei a gritar”. Para a aluna, aquele momento deixou ainda mais evidente como as pessoas LGBTQIAP+ são vistas constantemente como promíscuas e como um objeto que pode ser utilizado e descartado ao bel prazer dos agressores, mesmo quando eles próprios são os que repudiam e ameaçam a nossa existência. 

Sophia conta que nem gosta de relembrar o fato, porque acabou marcando sua vida de forma muito negativa e só se lembra dele porque, de algum modo, ela o ressignificou como uma fonte de coragem e força para lutar ainda pelos seus direitos. Consternada com o que havia vivido, a aluna se recorda que várias vezes havia reclamado à diretoria sobre casos que envolvessem lgbtfobia, sem que nenhuma atitude fosse tomada para solucionar o problema. “Meu maior medo era denunciar e apanhar, ou qualquer outra coisa do tipo”.
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Em casa desde março de 2020, Sophia conta que está vivendo um dos momentos mais felizes de sua vida. Com as economias do seu trabalho, ela deu início à hormonioterapia, conhecida popularmente como Terapia Hormonal ou simplesmente TH. O tratamento é feito com injeções à base de estradiol para as mulheres trans. Já em casos mais específicos, como pessoas acima de 40 anos, fumantes ou com problemas circulatórios, é recomendado o uso de pílulas, géis e/ou adesivos de estradiol. “No começo não foi fácil, até hoje mexe demais com meu psicológico, mas já vejo mudanças”. Assim como outras adolescentes, Sophia também teve que aguardar a idade legal para dar início ao seu tratamento.

No Brasil, as terapias hormonais são proibidas para menores de 16 anos, e as cirurgias só são liberadas a partir dos 18 anos. “Hoje eu vejo que melhorou bastante minha pele. Meu corpo está ficando mais curvado, com traços femininos, pele e pedra no peito”. Realizada por alcançar o que tanto sonhou durante toda a sua vida, ela diz sentir muito orgulho da pessoa que é e se vê atualmente, transformando-se a cada dia. “Eu passei por tudo isso sozinha. Não tive apoio nem de mãe ou qualquer outro familiar. Tô até emocionada aqui”. 

"Dentro do banheiro, os dois começaram a passar a mão nas minhas partes íntimas. Foi quando eu realmente gritei e corri para fora, ainda muito assustada, com medo de que o pior pudesse acontecer"

Sophia Rodrigues (aluna do Ensino Médio)

Livros

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Ser e (re)existir como LGBTQIAP+ na escola.



A realidade vivida por Sophia durante o seu percurso estudantil não é um ponto fora da curva, quando o assunto é violência de gênero e diversidade sexual na escola. O que os dados sobre lgbtfobia apontam é que a violência contra pessoas LGBTQIAP+ nas instituições de ensino brasileiras se torna cada vez mais frequente com o passar dos anos e se intensifica ainda mais com a falta de políticas públicas e projetos que auxiliem na resolução de casos de agressão relacionados à orientação sexual e à identidade de gênero de estudantes e professores(as). Com a chegada da pandemia de Covid-19 no Brasil, o que fez com que estudantes e professores(as) ficassem em casa, o distanciamento social acabou obrigando as pessoas LGBTQIAP+ a conviverem com seus agressores ou a esconderem suas questões de sexualidade de seus familiares por medo. 
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Arte e design: Carlos Augusto


De acordo com o relatório Diagnóstico LGBT+ na pandemia, produzido em junho de 2020, pela #voteLGBT, em parceria com a Box, o maior impacto para a população LGBTQIAP+ durante a crise de saúde mundial foi a piora na saúde mental. A pesquisa foi realizada com um total de 9.521 pessoas e 11,74% das entrevistadas destacaram o sentimento de solidão permanente durante o período que ficaram reclusas em casa.

Ao tratar do contexto escolar, outro relatório sobre inclusão e diversidade sexual na educação, produzido pela UNESCO, também durante a pandemia de COVID-19, e divulgado em junho deste ano, aponta que as escolas da América Latina ainda são o lugar mais hostil para pessoas LGBTQIAP+. Isso acontece, segundo a organização, devido à onda de agressões que são praticadas nesses ambientes. 
 
Alguns dos fatores que intensificam a naturalização de ações preconceituosas e, até mesmo, letais à vida de pessoas não-heterossexuais no ambiente de ensino, de acordo com o relatório, são o cerceamento de discussão sobre diversidade e a ausência de uma educação sexual capaz de gerar empatia e fornecer informação sobre as diferentes formas de vivência da sexualidade e acerca da adoção de práticas sexuais seguras e do autoconhecimento em relação ao próprio corpo.

Ainda segundo a pesquisa da UNESCO, o que mais afeta a vida de jovens brasileiros(as) LGBTQIAP+ na sala de aula é a falta de diversidade entre professores(as) e as disposições legais reacionárias adotadas pelo governo Bolsonaro, que eliminaram conteúdos sobre diversidade e orientação sexual dos livros didáticos, assim como ocorreu no Paraguai, cuja disseminação de materiais educativos sobre estudos de gênero também foi proibida. 

No Brasil, termos como “gênero” e “diversidade sexual” são retirados de livros didáticos e dos principais documentos sobre educação

Um dos episódios mais recentes que endossa a supressão de conteúdos dos livros didáticos sobre respeito à diversidade sexual nas escolas é a fala do atual Ministro da Educação, Milton Ribeiro, durante o lançamento do cronograma para implementação do Novo Ensino Médio, ocorrido no dia 14 de julho de 2021. Na ocasião, Milton Ribeiro declarou que não admitiria questões de gênero em livros didáticos, uma vez que, em sua visão, crianças não deveriam ter acesso à educação sexual e nem mesmo a conteúdos que promovessem reflexões e debates sobre gênero e corpo humano. “Não vou permitir que em livros didáticos a gente possa levar questões de gênero para crianças de 6 anos de idade. Tudo tem o seu tempo certo, não podemos violentar a inocência das crianças”. 
 
Ribeiro foi o mesmo que defendeu a interferência de agentes do governo federal nas provas do ENEM, sinalizando que eles poderiam “evitar ideologia” no exame. Sob autorização do atual governo federal, desde 2018, o MEC vem realizando essas alterações no conteúdo do segundo maior exame educacional do mundo, que concede acesso a estudantes de escolas públicas e privadas a universidades de todo o Brasil. Durante uma viagem a Dubai, poucos dias antes da edição do ENEM 2021, o presidente da república, Jair Bolsonaro, disse que as questões da prova começariam “a ter a cara do governo”, referindo-se à retirada de expressões como Ditadura Militar, Racismo e Sexualidade, que já haviam sido excluídas dos textos anteriores. 
 
As palavras do presidente não foram recebidas com tanta passividade pelos servidores da educação que são responsáveis pelo exame, nem pelos próprios estudantes brasileiros que há tempo esperavam pela prova. Como consequência da falta de capacidade gerencial da direção, além de fragilidade técnica e administrativa,  servidores(as) do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o INEP, começaram a realizar denúncias envolvendo as interferências políticas no exame.

Segundo matéria publicada pela revista piauí, intitulada O Enem em voo cegotreze servidores assinaram um documento online pedindo exoneração durante a manhã do dia 8 de novembro. Em solidariedade a colegas de trabalho, outros(as) servidores(as) também pediram exoneração do cargo de chefia que ocupavam, sem que deixassem suas posições de servidores do Instituto. À tarde, por volta das 14h, 21 servidores(as) já tinham pedido demissão e, ao fim do dia, já se contabilizava um total de 35 profissionais exonerados(as). 
 
Com a repercussão da crise no INEP e devido à gravidade institucional das denúncias, a notícia acabou ganhando atenção de vários órgãos de imprensa e gerou uma comoção popular que afetou até mesmo o emocional de estudantes em diversas partes do país. No mesmo dia em que o presidente falou sobre sua interferência na prova, os(as) candidatos(as) disseram temer que questões e temas específicos fossem suprimidos e relataram "cuidados" com opiniões a serem dadas na elaboração da redação. Em entrevista ao Portal G1, o estudante João Vitor dos Santos, de 17 anos, chegou a fazer 12 redações, de 30 linhas cada, apenas na última semana do exame, preocupado com o tema que poderia cair na prova. 
 
O responsável pela atual Presidência do INEP é o especialista em Administração e Economista, Danilo Dupas, que já tem em seu nome vários pedidos de afastamento protocolados na justiça pela Educafro, União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes) e pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Dupas foi nomeado por Milton Ribeiro em janeiro de 2021 e permanece no cargo, mesmo após as graves denúncias feitas pelos servidores. Com o objetivo de aparelhar ainda mais os órgãos de educação, Milton Ribeiro também realizou cortes inéditos nas verbas de universidades federais, sobretudo em pesquisas das áreas de Humanidades e Sociais, durante a pandemia de Covid-19 e, em março deste ano, nomeou a professora Sandra Ramos, aliada do movimento Escola Sem Partido, para coordenação-geral dos livros didáticos no MEC. 
 
Defensora ferrenha da revisão à base curricular sob um viés conservador cristão, Sandra Ramos já chegou a declarar a um blog, defensor dos ideais do Escola Sem Partido, que é pesquisadora na área de ideologia de gênero, termo que é taxativamente criticado por acadêmicos e não é reconhecido pela comunidade científica brasileira.

Durante a entrevista ao portal, a coordenadora confessou estudar os livros didáticos distribuídos a crianças e adolescentes da educação básica, à busca de eliminar questões de gênero e diversidade presentes nesses materiais. Segundo ela, o caminho mais certo para silenciar uma “minoria ruidosa” seria “retirar todas as ideias, premissas e estratégias pedagógicas da ideologia de gênero” na BNCC, o que de fato vem sendo praticado pelo governo Bolsonaro e que já era defendido pelo presidente, quando ainda era deputado federal. 
Parte 1

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Tabu na escola, falta de debate sobre sexualidade prejudica os ideais de uma sociedade mais inclusiva e livre de violências

O psicólogo João Brod explica que falar sobre sexualidade nas escolas implica ameaça à heteronormatividade, que coloca como normal e correto apenas o indivíduo heterossexual cis e, por isso, temáticas LGBTQIAP+ são recorrentemente vistas por alguns setores da sociedade como perigosas. “A sociedade, que sempre reproduziu preconceito, é resistente a mudanças.”

Gaúcho e LGBTQIAP+, João Brod atende com grande frequência pessoas da comunidade e consegue entender na prática a complexidade que é ser uma pessoa LGBTQIAP+ na escola. Para ele, a capacidade de um aluno ou uma aluna se reconhecer em suas complexidades e se aceitar como sendo uma pessoa não-heterossexual se torna ainda mais difícil sem que haja uma educação que dialogue com suas vivências e lhe ofereça equidade no espaço estudantil. 



 
 
 









Ora ignorada pela família, ora negligenciada pelas instituições de ensino, o psicólogo explica que a educação sexual é tanto papel da escola, como da família, que constantemente incentiva seus filhos a serem e se comportarem sob padrões heteronormativos. “Esse discurso de que crianças e principalmente adolescentes não estão prontos para falar sobre sexualidade é, na minha visão, uma reprodução de preconceito. Afinal de contas, muitos pais incentivam meninos a beijarem meninas e terem namoradinhas na escola”. 
 
Professor de Língua Portuguesa do ensino fundamental e médio, em escolas do Espírito Santo, André Couto [nome fictício] conta que as dificuldades em ser uma pessoa gay no ambiente escolar têm raízes na infância e nas vivências dentro e fora de casa. “Desde pequeno, eu sempre tive os chamados ‘trejeitos’ e no sexto ano do ensino fundamental, durante uma discussão, ouvi de uma professora substituta que meu futuro seria morrer espancado, assim como o personagem gay de uma novela que passava na época”. 
 
Se por um lado, o apoio em casa já era algo inalcançável para André, a escola também representava um dos ambientes ainda mais hostis à sua vivência, ainda que em alguns momentos fosse o espaço de maior convívio com a diferença. “Esse acontecimento me marcou bastante, eu sempre chorava quando tinha que relatar o ocorrido. Meus pais e eu chegamos a levar essa professora à Justiça, mas por influência da igreja, decidimos não seguir em frente com o processo”, disse ao se lembrar de como um acontecimento ocorrido na sua infância pode ter afetado sua vivência estudantil ao longo de toda sua vida. “Hoje, como professor, busco repreender piadas e comentários homofóbicos. Além disso, assuntos como sexualidade, por exemplo, são os próprios alunos que levam para a sala de aula, também me questionando sobre o que penso a respeito”.

Psicólogo explica por que a ansiedade está presente na vida de muitas pessoas LGBTQIAP+ (Reprodução: Redes sociais)

'Concluir a Educação Básica é um percurso impossível quando a escola não acolhe pessoas travestis e transexuais'

Para Paula Beatriz, reconhecida como a primeira diretora trans do século XXI, os maiores desafios enfrentados por uma mulher trans na escola se iniciam já na educação infantil, quando crianças são impedidas de escolher a brincadeira que desejam, por razões que limitem o que é de menino e o que é de menina. “Já vão sendo impostas a estas crianças frases como ‘isso é de menina ou aquilo é de menino’, ou ainda, ouvirmos que “rosa é para as meninas e o azul para os meninos”. A fala de Paula vai ao encontro da maioria dos relatos de alunas que sofreram violências tanto de modo simbólico, como prático, nas mais diversas instituições de ensino. 






 
 
 
 
 
 




A diretora também conduziu a mobilização quanto à inclusão de nome social de alunos(as) transexuais e travestis em listas de chamada e diários de classe. O nome social é o modo como a pessoa se autoidentifica e é reconhecida, identificada, chamada e denominada na sua comunidade e no meio social, uma vez que o seu nome civil, isto é, seu nome de registro não reflete a sua identidade de gênero. Para Paula, a autorização para utilizar nomes sociais em registros e documentos escolares é uma vitória da qual até hoje se orgulha e que segue colhendo os frutos.
 
Desde 2014, estudantes travestis e transexuais podem ser tratados pelo nome social nas escolas públicas e particulares do Estado de São Paulo. No ano de 2011, o MEC já havia publicado a portaria nº 1.612, que assegurava a agentes públicos transexuais e travestis o direito de serem tratados pelo nome social nos procedimentos realizados no âmbito do órgão. Com a medida, funcionários(as) públicos do ministério poderiam utilizar o nome social em seus crachás e endereços eletrônicos, por exemplo.

Em 2010, essa garantia também foi oferecida a profissionais de educação do Estado de São Paulo. 
O decreto nº 55.588 assegurava às pessoas transgêneros o direito à escolha de tratamento nominal em procedimentos promovidos no âmbito da administração direta e indireta do estado. Para tanto, a pessoa interessada deveria submeter uma solicitação formal. Já no âmbito educacional, a resolução do Conselho Estadual de Educação nº 45, publicada em agosto de 2014, assegurava que tanto docentes como estudantes transgêneros pudessem utilizar e ser reconhecidos pelos seus nomes sociais nas escolas públicas estaduais. O uso de nomes sociais também foi aceito para a realização do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Só entre 2014 e 2015, após a aprovação da portaria, houve aumento de 172% no número de candidatos transexuais e travestis (102 para 268 pessoas) que utilizaram seus nomes sociais na prova, segundo o INEP.
 
Paula lembra que o percurso estudantil de uma pessoa trans é ainda mais difícil se tivermos noção de que muitas delas nem sequer chegam ao ensino fundamental ou médio. “Conseguir concluir a Educação Básica é um percurso que se torna impossível devido a escola não acolher e nem se quer procurar mecanismos para que travestis e transexuais permaneçam neste espaço. Devemos romper com as práticas da ‘expulsão compulsória’ que muitas vezes é consciente e outras inconsciente”.

Apesar de ter chegado ao ensino médio, Sophia convive diariamente com atitudes que tentam excluí-la de alguns ambientes da escola. Sem respostas durante muito tempo sobre a permissão de utilizar o banheiro feminino, a aluna enfrentou o sistema e passou a utilizar o espaço mesmo sem autorização formal do diretor, buscando reivindicar um direito do qual ela tinha plena ciência de que era obrigação da escola lhe conceder. “Neste tempo, uma menina implicou comigo me chamando de viadinho, falando que não era para eu usar o banheiro feminino, que eu era homem”. A partir desse dia, Sophia decidiu que deixaria de ir definitivamente à escola, o que também foi motivado pela chegada da pandemia de Covid-19 no Brasil, em 26 de fevereiro de 2020. 

 
Depois do episódio, ela nunca mais voltou à instituição e até hoje se sente desconfortável ao cogitar um possível retorno. É como se a partir de agora ela realmente fizesse parte das estatísticas sobre a saída de pessoas trans do sistema educacional, mas que em seu caso é algo temporário. Ela diz que tem vontade de continuar os estudos, mas que está apenas aguardando o término da pandemia para voltar à escola. Ainda diz que seu maior medo é ter que voltar a utilizar o banheiro masculino da escola.

Desde os primeiros anos escolares, como explica Paula Beatriz, as crianças são condicionadas a seguir as regras da heteronormatividade e da binaridade de gênero, que ensinam até mesmo quais espaços devem ou não ser ocupados por elas. Além disso, seus comportamentos passam a ser completamente moldados segundo as normas heterossexistas, orientando meninas a serem delicadas, compreensivas, brincar de casinha, cuidar de uma criança, ter um conjunto de bonecas delicadas, gostar de roupas e brinquedos rosas, se interessar por balé ou serem professoras. Enquanto aos meninos, desde cedo é ensinado a serem fortes, agressivos, a se interessarem por tarefas que exijam raciocínio, agilidade e força física, como jogar futebol, artes marciais dos mais variados tipos, ser policial ou bombeiro. 

 
A realidade é que, sendo uma pessoa transsexual ou travesti na escola, as vidas de mulheres são sempre as mais afetadas pela violência de gênero no espaço escolar devido ao machismo, misoginia e sexismo. A prática de machismo contra mulheres transexuais está presentificada nos discursos que desqualificam seus trabalhos, comparando-os àqueles realizados por homens cisgênero e hétero, com o objetivo frequente de margilizar suas existências, reduzir suas habilidades e profissionalismo.

Se por um lado os dados mostram que mulheres cis são vítimas de 67% das agressões físicas no Brasil, essa realidade é ainda maior para trans e travestis. A própria residência da vítima é um dos lugares mais hostil à sua existência, de acordo com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan, parte do Ministério da Saúde), compilados pelo Mapa da Violência de Gênero. Só entre 2014 e 2017, 49% das agressões a esse grupo foram cometidas na casa das vítimas.  

 
A questão é tão complexa que o machismo e a transfobia ultrapassam diariamente os muros residenciais e geram vulnerabilidade às vítimas nas escolas, nos órgãos públicos, nas ruas e em tantas outras instituições. Tamanha é a necessidade de dar visibilidade à violência de gênero contra pessoas transsexuais e travestis que o enunciado 46 do Fórum Nacional de Juízes de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (Fonavid), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), tem definido como a Lei Maria da Penha deve ser aplicada também às mulheres trans, independente de alteração do nome de registro e de cirurgia de redesignação sexual.
 
O racismo também é outro crime que atravessa a vida de pessoas LGBTQIAP, sobretudo as pessoas transsexuais. Segundo dados do Instituto Internacional sobre Raça, Igualdade e Direitos Humanos (International Institute on Race, Equality and Human Rights – IREHR), aproximadamente 80% das pessoas trans assassinadas no Brasil são negras. Segundo o estudo, “o Brasil é um país extremamente desigual, hierarquizado e autoritário, constituindo-se, dessa forma, como um ambiente em que o racismo e a LGBTIfobia, imbricados com outros eixos de dominação, como o machismo e a dominação de classes, pulverizados nas instituições do Estado e nas relações sociais”.
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Paula Beatriz de Souza Cruz, primeira diretora trans da rede estudual de ensino. (Reprodução: Secretaria da Educação do Governo do Estado de São Paulo)

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‘Quando você é preto e LGBT, você tem que lutar duas vezes’

Vítima também do racismo que triplica a incidência de violência de gênero e diversidade sexual na escola, Ana Lívia [nome fictício] conta que a violência contra sua orientação sexual e sua condição de mulher também começou desde muito cedo na escola. Por ser uma mulher negra, gorda e bissexual, a aluna recebia xingamento de todos os lados sobre o seu cabelo, a sua cor de pele e o seu jeito de ser. A falta de apoio da família piorava ainda mais a situação que ela teria que enfrentar diariamente ao chegar na escola. “Os olhares vêm da própria família que diz que a homossexualidade não é normal. Quando você é preto e LGBT, você não luta apenas uma vez para viver na sociedade e ter seu espaço. Você tem que fazer a sua função de luta duas vezes. E sempre tudo será mais difícil”.
 
Um episódio que marcou a vida da aluna ocorreu quando foi violentada por ser uma menina gorda e preta na escola. “Já houve casos de machucarem meu olho enfiando os dedos para verem se eram verdes de verdade. Eles diziam que meu olho era falso. Já passei por muita merda na escola. Com 12 anos, eu alisei o meu cabelo escondido da minha mãe. Na época, tive uma alergia que precisei praticamente raspar meu cabelo. Isso foi uma desgraça na minha adolescência inteira”.

"A gordofobia dói tanto sabe? Eu fico pensando às vezes como alguém vai querer estar comigo sendo assim. Isso me prejudica em muitos relacionamentos por não me entregar inteira, sabe?"
 

Ana Lívia (aluna do ensino médio)

Somada a essas práticas de práticas de abuso e preconceito, a aluna também relata que já foi vítima recorrente de bifobia durante o Ensino Médio. “Foi algo bem dolorido por ter vindo de uma garota, da qual eu já fui amiga. Ela me disse que realmente eu deveria me interessar por mulheres, afinal eu era gorda e preta e seria muito difícil achar um homem que me levasse a sério. Isso foi o que mais me doeu, sabe? E até hoje é difícil falar sobre o assunto”. A lgbtfobia, quando aliada à gordofobia e ao racismo, provocava em Ana Lívia sentimentos intensos de raiva. “A gordofobia dói tanto, sabe? Eu fico pensando às vezes como alguém vai querer estar comigo sendo assim. Isso me prejudica em muitos relacionamentos por não me entregar inteira, sabe? É difícil. Porém, eu sei que é mais uma batalha que eu vou superar”.
 
Apaixonada por futebol e torcedora fiel do Flamengo, a grande alegria de Lívia é saber que a sua luta diária também serve de voz para outras mulheres, que igualmente vivenciam o machismo, a misoginia, o racismo e a lgbtfobia nos ambientes de ensino. “Acho que, como uma mulher preta e LGBT, eu inspirei muitas amigas minhas que tinham medo de serem quem elas realmente eram. Hoje percebo que elas têm seus relacionamentos homoafetivos e vivem super bem. Elas sempre me agradeceram por ser livre e viver meus amores tranquilo, sem pensar no que vão falar sobre mim. Eu sou essa pessoa e isso não vai mudar nunca o orgulho de ser quem eu sou de verdade”. 








Para Jéssica Tavares [nome fictício], mulher lésbica que passou todo o seu ensino médio mantendo apenas relacionamentos heterossexuais em público e se relacionando com meninas somente fora dos holofotes sociais (e no banheiro da escola), o seu lugar enquanto uma aluna que gostava de jogar bola e driblar os meninos constantemente foi questionado pelas pessoas durante seus estudos. “Por exemplo, eu joguei bola, que é o esporte que eu praticava bastante na escola, fiz uma jogada e deixei dois meninos para trás. Então, o colega dele veio e disse: ‘ah, tá perdendo para mulher’”. Falas como essas eram o que mais deixava a aluna indignada. 
 
O desconforto da sociedade contra mulheres que ocupam lugares que antes eram apenas direcionados aos homens ultrapassa o limite das casas patriarcais e se reproduz de modo preponderante na vida de alunas. Tanto é que sempre que alguém a reprimia, Jéssica se questionava por que, para algumas pessoas, as mulheres não poderiam ser mais habilidosas que os homens, como se fosse um destino da vida reduzir o ser feminino em contraposição à suposta superioridade masculina.

“As pessoas que poderiam me julgar por eu não ser feminina, no período em que aconteciam os campeonatos fora da escola, eram pessoas que me viam como ‘ah, olha lá, ela joga bola’. Nas aulas de educação física, as meninas que eram mais femininas me olhavam com olhares que diziam ‘olhem como ela é, não é tão feminina’", exemplificou ao recordar o modo como as pessoas questionavam a sua expressão de gênero - termo segundo o qual alguém se expressa fisicamente, se veste ou se apresenta através do tipicamente masculino ou feminino. A expressão de gênero de uma pessoa pode se externar por meio de vestuário, acessórios, estilos de cabelo, formas de falar, linguagem corporal, dentre outros aspectos de escolha na aparência.
 
Até o cabelo de Jéssica já foi motivo de preocupação e chacota por parte de suas colegas de sala, quando ainda estava no Ensino Médio. “Eu nunca fui uma pessoa apta a secar cabelo e eu não aceitava o meu cabelo ondulado. Então, eu não tinha os mesmos cuidados que as outras meninas tinham com o cabelo delas. Quando eu ia de cabelo solto para a escola, aquilo era uma novidade, era uma festa”. Hoje prestes a se graduar em Educação Física, Jéssica relata que já pensou em tirar a sua vida algumas vezes, devido a toda incompreensão em torno de sua sexualidade que vive fora e dentro de casa.

"Cara, já pensei várias vezes em tirar a minha vida. É a minha fé que me ajuda a não fazer nada disso"
 

Jéssica Tavares (ex-aluna do ensino médio)

Segundo um relatório da organização GGB (Grupo Gay da Bahia), a taxa de jovens LGBT que tentam se suicidar é significativamente mais alta do que aquela dos jovens heterossexuais. Estima-se que jovens rejeitados por sua família por serem LGBTs têm 8,4 vezes mais chances de tentarem suicídio. “Na escola, eu sempre negava minha sexualidade pelo medo das pessoas terem uma atitude homofóbica comigo ou espalhar a informação para outras pessoas. Então, eu sempre pensava sobre não ter apoio nenhum, não ser aceita do jeito que eu realmente era”.
 
Hoje, como estagiária em uma academia de musculação, Jéssica busca fortalecer as mulheres e as pessoas LGBTQIAP+ que também enfrentam cotidianamente a face mais cruel da violência de gênero e diversidade sexual. “No meu dia a dia, eu já combato esses preconceitos. Uma aluna, recentemente, postou uma foto na academia e me disse que o marido dela havia dito que aquilo era errado. Então, eu disse a ela para postar, que o corpo era dela e que ele não poderia agir de má-fé, se ele realmente a amasse iria respeitá-la. Além disso, eu sempre tento motivar as meninas quando estão treinando, porque se elas focarem e treinarem, elas vão chegar aonde elas querem”. 
 
Em sua visão, a educação física pode ser um lugar de experiência com o diferente, onde se aprende a respeitar o outro e compartilhar histórias de vida no dia a dia. Ao se referir sobre a capacidade do esporte em dar espaço e oportunidade a todas as pessoas, Jéssica conta como se pode abranger e incluir todas as orientações, identidades e expressões de gênero no ambiente esportivo. “Hoje, eu entendo que a educação física é o ambiente que abraça todo mundo. O esporte é o lugar que está ali para acolher todo mundo e para ajudar as pessoas. Quero trabalhar na humildade e sempre mostrar que não há por que não participar de uma modalidade porque a pessoa é não é hétero ou algo assim. Se pessoas que são deficientes, conseguem se adaptar, por que não podemos adaptar a mente de uma pessoa para que ela perceba que é capaz de conseguir realizar muita coisa?”

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‘A diversidade sexual precisa ser discutida com leveza e regularidade para que seja naturalizada’

Além das violências contra orientação sexual vivenciadas por alunos e alunas na escola, se engana quem acredita que somente esses e essas estudantes são vítimas da LGBTfobia. Professores e professoras também lutam diariamente contra o preconceito. Victor Pereira, que é professor e pesquisador, conta como foi sofrer lgbtfobia advindo de um colega de trabalho. “Já sofri lgbtfobia dentro do meu ambiente de trabalho, mas a violência não partiu de um aluno, e sim de um colega. Estávamos envolvidos em um projeto, quando o colega se equivocou na leitura das orientações estabelecidas pela coordenação”. Neste momento, os alunos e as alunas perceberam o equívoco e começaram a comparar Victor ao seu colega de trabalho. Furioso, o professor hétero passou a questionar a competência profissional de Victor, por meio de ofensas em relação à sua orientação sexual.








 






“Sentindo-se diminuído pelos alunos, ele deixou a sala de aula e, no corredor, gritou: ‘quem esse viado pensa que é para ser melhor do que eu?’. No momento do ocorrido, eu não estava presente. Mas, no dia seguinte, fui acolhido e acarinhado pelos alunos que ficaram revoltados com a atitude do meu colega”. Mesmo sendo professor e após buscar ajuda na diretoria para resolver a situação de modo definitivo, Victor não foi ouvido. “Reivindiquei à direção da escola uma retratação por parte dele, mas isso nunca aconteceu”. Hoje, ele acredita que a escola poderia ter combatido casos de homofobia, falando sobre o assunto. “A diversidade sexual precisa ser discutida com leveza e regularidade para que seja naturalizada. Em um ambiente em que o respeito às mais variadas formas de existir e de amar é legitimado, outras serão as preocupações daqueles que estão ali para aprender e/ou ensinar”.
 
Diferentemente de Victor, há profissionais que temem falar abertamente sobre sua sexualidade, com medo de sofrer retaliação. Professora no Rio de Janeiro, preta e LGBTQIAP+, Ana Carolina já lecionou em uma escola da Aeronáutica, onde a ausência de uma educação sexual e de liberdade para falar sobre o assunto com os alunos e alunas é um dos principais motivadores da naturalização de preconceitos e violências em sala de aula. Por medo de sofrer algum tipo de retaliação ou até mesmo ser violentada, Carolina hesita em falar sobre sua sexualidade no local de trabalho, por considerar que ainda há muita incompreensão e comportamentos machistas contra mulheres LGBTQIAP+ e pretas nesses ambientes. "Constantemente, eu tenho meu trabalho colocado à prova por colegas de trabalho, principalmente homens, pais e alunos. É como se vivesse em uma eterna maratona em que tenho que provar o tempo todo que sou capaz de fazer o meu trabalho, sem precisar da intervenção de algum outro colega de trabalho”.  
 
Carolina acredita que impedir o debate sobre sexualidades na sala de aula é uma forma de silenciar não só professores(as) e alunos(as), mas toda a comunidade LGBTQIAP+. “Como se não discutir sobre o assunto fosse apagar toda uma história e é isso o que querem. Fico preocupada porque isso representa um grande retrocesso em relação a tudo que falei anteriormente”. O que acalenta a professora é saber que, apesar de toda a repressão vivida na escola e mesmo com as tentativas do governo em silenciar estudantes, há adolescentes que utilizam cada vez mais suas redes sociais e outros canais de interação para tratar sobre sexualidade e assuntos afins. “O que me dá um pouco de esperança é perceber que fora da sala de aula o assunto já é bastante discutido entre os jovens (é só observar como adolescentes falam sobre esses temas em suas redes sociais) e acredito que tendo um interesse por parte deles, um trabalho coletivo com os professores é possível, e juntos conseguem debater esses assuntos de forma mais social”.
 
Para Luiz Basílio, professor preto, gay e gordo, que já lecionou para alunos do Ensino Fundamental e Médio durante o PIBID - ação da Política Nacional de Formação de Professores do Ministério da Educação (MEC) que visa proporcionar a discentes do curso de licenciatura uma aproximação prática com as escolas públicas, a falta de debate sobre sexualidade na escola é destrutiva para vários aspectos da educação. “Penso que as consequências são de toda ordem. Desde sempre as pessoas iniciaram suas vidas sexuais bem cedo, só ver nossos avós, nossos pais, isso não é da geração atual. Então, a escola, o espaço onde as pessoas passam maior parte da infância e juventude, deveria, sim, se debruçar sobre essa discussão, de forma a orientar os alunos e alunas de acordo com suas respectivas faixas etárias”.

Apesar de ter dito que nunca sofreu lgbtfobia de modo explícito, Luiz Basílio explica que já recebeu comentários sobre seus adereços e por utilizar acessórios que, para a sociedade, são de exclusividade feminina. “Eu dei aula para o primeiro ano do Ensino Médio em uma escola do estado de Minas Gerais por meio do PIBID. Nunca sofri lgbtfobia explícita, mas já fui questionado por usar esmalte, brinco, etc”. E completa, “Nunca sofri diretamente, mas os olhares sempre há, né?”. 
 
Para Paula Beatriz, é fundamental não se esquecer de que existem algumas escolas pelo Brasil que tratam de temáticas LGBTQIAP+. “Há muitas escolas realizando trabalhos quanto à diversidade sexual e de gênero. E nas escolas em que isso não ocorre, parece-me que seja porque há medo, os ataques são constantes nas escolas que promovem a discussão, reflexão e práticas de combate à violência LGBTQIAP+”. Para a diretora, além de não ocorrer o debate, há também a necessidade de formação específica para os profissionais de educação. Ela conta que já vivenciou casos de violência contra a mulher nas instalações do colégio em que trabalha. “Lembrei de um fato quando uma professora me chamou para dizer que havia uma briga durante a saída dos estudantes. Para minha surpresa, deparei-me com um homem agredindo a mãe de um estudante. Num instante dei uma voadora no cara e disse a ele: ‘gosta de bater em mulher? Vem’”. Ela conta que o homem saiu rapidamente da escola, e que logo tomou as tratativas com a mãe, chamando a polícia. “A mãe disse-me que não precisava e respondi firmemente para ela que este fato não passaria em branco aos meus olhos. Enfim, o agressor nunca mais apareceu na escola”.
 
Com a falta de discussão sobre sexualidade em casa e na escola, adolescentes buscam se informar e compartilhar informações sobre a temática na internet. Seguido por 18 mil pessoas, o psicólogo João Brod produz conteúdos sobre sexualidade no Instagram. “As redes sociais são, na minha opinião, uma voz ativa para uma psicologia que, durante muitos anos, ficou presa aos consultórios elitizados e de difícil acesso”. Por meio de posts criativos, vídeos interativos e frequente contato com os seguidores a partir da função “caixinha de perguntas”, o profissional democratiza o acesso à informação segura sobre educação sexual. 
 
Em seu perfil na rede social, ele esclarece: “Te ajudo a se orgulhar de quem você é”. Suas últimas publicações têm falado sobre as origens pelas quais pessoas LGBT+ se reprimem, a necessidade de se pensar em um psicologia para pessoas LGBTQIAP+ e os 4 fatores que prejudicam a autoaceitação de pessoas LGBT+. “Não é sobre fazer terapia pelos stories do Instagram, mas sim divulgar informações importantes para a comunidade sobre diversas questões, desde transtornos mentais até questões sobre sexualidade e (auto)aceitação”. 
 
Para João, enquanto a escola ainda não trata sobre o assunto como deveria, tão pouco a família faz sua parte nesse processo de descoberta e aceitação, a psicologia pode ajudar na criação de um espaço de maior inclusão na medida em que fortalece as possibilidades de cada um, sobretudo nas redes de ensino. “Estar em um ambiente que promove e aceita a diversidade é bom para crianças LGBT+, mas também para pessoas hétero cis a não reproduzirem preconceito”.
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Victor Pereira, professor do Ensino Médio e do Ensino Superior, alocado na Universidade Estadual da Bahia (UNEB). (Reprodução: Arquivo Pessoal).

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